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O músico com perda auditiva necessita de duplo atendimento



         Veja matéria com Dra. Katya Freire para o site Audiology. "Esse paciente precisa de uma atenção particular, já que sua perda deverá levar à adaptação de duas tecnologias: o AASI para sua vida social, e o monitor in-ear durante os concertos, com o objetivo de obter o retorno da própria voz e/ou dos instrumentos baseado na sua audição e voltado para a proteção auditiva." Explicações sobre esse assunto com a Dra. Katya Freire, diretora da Audicare, clínica especializada no atendimento ao músico.

Esse paciente precisa de uma atenção particular, já que sua perda deverá levar à adaptação de duas tecnologias: o AASI para sua vida social, e o monitor in-ear durante os concertos, com o objetivo de obter o retorno da própria voz e/ou dos instrumentos baseado na sua audição e voltado para a proteção auditiva. Explicações sobre esse assunto com a Dra. Katya Freire, diretora da Audicare, clínica especializada no atendimento ao músico.

Os limites dos AASI em processar sinais sonoros da música podem deixar o paciente comum com uma certa insatisfação. Mas, existe uma categoria de deficientes auditivos que costuma ficar completamente insatisfeitos: são os próprios músicos que tiram proveito de um melhor processamento auditivo central do que a média dos indivíduos e, com isso sofrem mais com as limitações dos dispositivos.

O país conta com milhares de músicos (60 mil, atuando profissionalmente, de acordo com um levantamento da Associação Brasileira da Música, em 2008) e estudos apontam para uma proporção alta de indivíduos com problemas auditivos provocados pela exposição a sons de forte intensidade, e sendo portanto candidatos a adaptação de AASI. Um estudo nacional publicado em 2010 (1) mostrou que 21% da casuística avaliada – um grupo de músicos de pop-rock – sofria perda auditiva nas frequências altas e que, dentre os indivíduos com audiogramas normais, 58% registravam entalhe audiométrico em pelo menos uma das orelhas.

O paciente músico com perda auditiva requer atendimento diferenciado. E, em dose dupla, pois além de precisar da amplificação sonora no âmbito social, a perda auditiva deve também ser levada em consideração na hora das apresentações em público. “Na verdade, os músicos vêm em primeiro lugar por conta das suas necessidades profissionais e da prevenção auditiva, mas muitas vezes a avaliação audiológica já evidencia perda auditiva e requer a adaptação de AASI”, relata Katya Freire, diretora da Audicare, clínica pioneira na conservação auditiva dos profissionais brasileiros desta área.

“Muito apoio e paciência”

Em um depoimento por vídeo apresentado pela fonoaudióloga durante o EIPA 2014, um músico produtor e compositor com perda auditiva moderadamente severa e usuário de AASI há 15 anos ilustrou a complexidade do atendimento deste grupo de pacientes com capacidades auditivas diferenciadas, e as exigências com o qual o profissional precisa lidar. “Talvez o maior desafio tenha sido encontrar palavras e maneiras para traduzir como eu supostamente estava ouvindo. O conhecimento de acústica e de como atua a compressão foi muito útil porque você consegue através desses conhecimentos compartilhados ter alguns parâmetros e criar algumas referências. Independente disso é um processo demorado, precisa de muito apoio e paciência para que possamos chegar em resultados efetivos, o músico não só tem a perda auditiva, ele também tem uma perda emocional muito grande se não consegue traduzir sua criatividade e sensibilidade através da música. É um trabalho grandioso que deve ser feito e ao mesmo tempo muito recompensador porque toda a conquista que se adquire através desse esforço, dessa dedicação e experimentações se traduzem na maneira que vai poder tocar e passar isso para as pessoas”, relatou.

“Para esses pacientes musicistas, a música no AASI soa esquisita, parece eletrônica e robotizada, ou seja assemelha-se a um som distorcido. O músico adaptado vai muito bem na fala, mas não na música e por isso o processo de adaptação requer mais tempo, e mesmo após a aclimatização, que é o tempo para o cérebro assimilar as novas informações, parece que nunca vai ficar extremamente satisfeito com o resultado”, relata Katya Freire.

Na Audicare, a adaptação de AASI em novos pacientes segue um protocolo de até seis sessões – ou seja, com duração de no máximo um mês e meio. No que lhe diz respeito, o músico com perda de audição requer bem mais tempo: dois, três e, para alguns, até quatro meses para acertar a programação que atenda melhor sua capacidade de percepção.

“Essa exigência decorre do fato que esse sujeito escuta diferentemente do paciente comum que não dispõe de um processamento auditivo central tão eficaz quanto o do músico. Desta forma o músico é muito mais sensível aos parâmetros de ajustes dos AASI’s, percebe variações mínimas de frequências e intensidades, como por exemplo uma variação de 2 dB em 750 Hz. Por isso, não dá para atendê-lo no mesmo tempo”, salienta Katya Freire. “Parece incoerente, um paciente que não tenha alterações de processamento auditivo, não ter uma adaptação rápida, mas a questão é que o músico é extremamente exigente com o que está ouvindo, e os AASI, ainda não o satisfazem plenamente”, completa.

AASI com maior nível de entrada

Músicos tendem a demonstrar maior satisfação com os modelos mais recentes das linhas Premium que oferecem uma faixa de frequência estendida superando 8.000 Hz, mesmo que esta não atinja até 16.000 Hz, faixa de frequência comum em composições musicais. Sobretudo alguns AASI, com maior ênfase em perfil de paciente músico ou amador de música, conseguem lidar com um maior nível de entrada sonora, ponto chave para aprimorar o desempenho do AASI com sinal musical.

Certas empresas oferecem hoje um nível máximo de entrada (peak input limiting level) que alcança e até supera os 110 dB NPS, sendo esse o principal motivo para o músico se mostrar mais contente com o AASI e não perceber o som com distorções.

Os ajustes nos algoritmos direcionados para a escuta da música são diferentes do que se faz para um paciente comum. Trata-se de escolher a opção de microfone omnidirecional, desativar o redutor de ruído, desligar ou deixar o supressor de microfonia mais lento (para evitar artefatos provocados pelo corte, como alguns instrumentos com sons mais agudos, por exemplo o violino) e ter uma compressão de frequência linear. “Com isso, o objetivo é ter um AASI mais ‘limpo’, sem corte em algoritmos para a música não ser filtrada”, resume Katya Freire.

Perda auditiva no profissional de música não somente acarreta adaptação de AASI, ela também traz – o pelo menos deveria trazer – obrigações na sua prática profissional, particularmente em apresentações ao vivo. Essas requerem um sistema paralelo, chamado retorno ou monitor, que permite que os músicos ouçam o que estão tocando. Antigamente realizado por caixas de som de chão, esse controle hoje pode ser feito com monitores individuais “in-ear”, bem mais eficientes e, sobretudo, permitindo a personalização do retorno sonoro.

Com as mixagens na mesa de som, o técnico seleciona quais fontes sonoras da banda (instrumentos e voz) serão transmitidas por UHF (sigla para Ultra High Frequency, e que designa a faixa de radiofrequência de 300 MHz a 3 GHz) aos monitores in-ear, via um transmissor body-pack. Além de selecionar os instrumentos, o técnico da mesa de som controla a intensidade sonora e por isso, seu conhecimento em fisiologia da audição é teoricamente importante para que esta monitoração seja realizada de acordo com o perfil auditivo de cada músico.

Esse é o segundo aspecto do trabalho da audiologista junto aos músicos e técnicos de som, um trabalho no qual se especializou a Audicare. “De modo geral, trata-se de preservar a audição dos profissionais da área e, para os que já apresentam déficits, compensar as frequências atingidas e evitar que piore a situação. “Se colocar o monitor in-ear sem fazer nenhuma mixagem personalizada o músico com perda auditiva vai aumentar o volume geral porque sente que está faltando algum som, e aí está o perigo, pois com isso o nível de pressão sonora no conduto auditivo será elevado podendo agravar sua perda”, explica Katya Freire.

“In-ear” traz benefícios, desde que bem utilizado

A função do audiologista é portanto atuar junto ao técnico do som para que este faça uma mixagem personalizada com base nos dados fisiológicos que resultaram da avaliação audiológica de cada músico. O objetivo da mixagem no músico com perda é compensar as faixas de frequência prejudicadas e evitar danificar as outras. Vale ressaltar que todas as regulagens ocorrem na mesa de som. O equipamento possui vários recursos contemplados em AASI e por esta razão facilita o papel do audiologista com o músico, em particular com aquele que já apresenta perda auditiva.

“É uma abordagem que se assemelha à do AASI, mas com um olhar de um ângulo diferente, já que as mixagens são realizadas em dB volts e não dB NPS. Apesar disso, o raciocínio tem que ser muito próximo e por esta razão quem não trabalha com AASI terá dificuldades em atuar com preservação auditiva do músico”, ressalta Katya Freire. Por exemplo, quando há lesão das células ciliadas externas, ou seja quando a função de compressão não-linear dessas é perdida e que não há mais amplificação dos sons baixos e atenuação dos sons altos, é preciso reverter esse déficit tanto no AASI quanto nos monitores in-ear através da mixagem.

O monitor in-ear traz benefícios importantes, desde que bem utilizado. Seu uso deve ser binaural, apesar de muitos músicos utilizarem só um pois desejam ouvir a ambiência do palco e da plateia. No capítulo que escreveu para o Tratado de Especialidades em Fonoaudiologia sobre saúde auditiva em músico (2), Katya Freire adverte: “Diferentemente do que muitos músicos imaginam, o uso unilateral é um grande risco para a audição. Se o objetivo é escutar a própria voz e/ou os instrumentos, usando o fone dessa maneira existe uma tendência a aumentar o volume do body-pack para se obter uma audibilidade melhor e compensar o ruído externo. Quando se aumenta o volume numa cavidade menor, como num meato acústico externo, o nível de pressão sonora (NPS) emitido é muito maior do que num palco aberto, por exemplo. Então, o risco para desenvolver uma perda auditiva é duplicado na orelha aberta pela exposição ao NPS do palco com todos os instrumentos tocando juntos e na orelha com o fone, devido ao NPS excessivo.” O texto ainda ressalta que, quando se usa o fone em ambas as orelhas, a mixagem poderá ser em qualidade estéreo, oferecendo muito mais condições de ouvir todos os instrumentos em seus devidos lugares, com uma sensação de audição 3D (tridimensional), o que não acontece no uso monoaural.

Outro risco do uso monoaural será o músico aumentar sua voz e assim prejudicá-la. A monitoração auditiva, portanto, é também sinônima de preservação vocal. Outra vantagem de se utilizar um par de fones se dá pela somação binaural, conceito similar ao da adaptação de AASI, e que permite ao cérebro fazer a integração das informações captadas.

Uma das características dos monitores personalizados é que sua resposta de frequência é bem mais estendida do que a de qualquer AASI, inclusive dos últimos modelos mais direcionados para os músicos. Monitores in-ear transmitem sons na faixa de 8 Hz ou 18 Hz até 20 kHz necessitando a realização da audiometria de alta frequência, exame também útil em caso de zumbido, outro sintoma comum em indivíduos expostos a sons altos. A audiometria de alta frequência (9kHz – 20 kHz) é complementar da audiometria tonal limiar convencional (250Hz – 8kHz), mas permanece pouco realizada pelos profissionais que atuam nessa área, dificultando assim a atuação do técnico de som pautada pela preservação auditiva.

A audiometria de alta frequência é complementar da audiometria tonal limiar convencional mas permanece pouco realizada pelos profissionais que atuam nessa área

Referências

(1) Músicos de pop-rock: avaliação da satisfação com protetores auditivos Bolzachini Santoni C,Fiorini AC, Braz. j. otorhinolaryngol. 2010, Vol. 76 Ed. 4 - Julho - Agosto - (9º), 454 a 461.

(2) Saúde Auditiva em Músicos - Freire, K. Tratado de Especialidades em Fonoaudiologia, 2014 – pgs. 994- 1003. Editora Roca

Publicado em: 2015-09-30 12:01:14